Minha história é longa e começa no dia do jogo entre Brasil e Costa do Marfim. Chegamos bem cedo ao Soccer City com a missão, designada pelo Alto Clero, de fazer de tudo para procurar, encontrar o Galvão Bueno e conseguir alguma declaração sobre o calaabocagalvao.
A saga começou umas 4 horas antes do jogo. Logo no começo, trombamos o ator Cássio Reis e o ex-capitão Cafu. Bons personagens para compor a matéria. Depois, demos início à grande caça pelos corredores do estádio. Primeiro tentamos encontrá-lo na área dedicada à imprensa, de onde narradores, comentaristas e jornalistas em geral acompanham o jogo. Nossa credencial não dá acesso a esse setor, mas ali soubemos através de conhecidos que a Globo tem um estúdio de vidro só dela, assim como a Band. Mas se nem no setor de imprensa conseguimos entrar, imagine nos estúdios mais pimp do estádio.
Durante esse impasse, no portão de entrada dos estúdios, encontramos Mauro Silva, Mauro Betting, Marcos Frota e William Wack. Mais recheio pra nossa história. Resolvemos então ligar para um broder da Band tentar botar a gente pra dentro. Rolou.
Ele nos mostrou onde era o estúdio da Globo. O de número 2. O Rafa bateu na porta e abriu. Galvão, Casagrande e José Roberto Wright olharam com uma cara de espanto, e logo veio uma funcionária fechar a porta e mandar a gente sair. Um representante da Fifa percebeu o movimento e veio reclamar da nossa presença ali, quanto mais com uma câmera e um microfone. Demos um migué e continuamos ali na miúda.
De repente a porta do estúdio 2 se abre. Não era o Galvão, mas o Casagrande. Falamos com ele. Aí passou o Bebeto, comentarista da Al Jazeera. Falamos com ele também. O cara da Fifa já estava furioso quando o Galvão teve que sair para mijar. Era tudo que a gente precisava para fechar a matéria com chave de ouro, e fechamos. Ele foi atencioso e falou tudo que a gente precisava.
Saímos de lá com a alma lavada e a sensação de dever cumprido. Fomos correndo até o carro para preparar uma ação secreta que o CQC vai mostrar na outra segunda. Voltamos pro estádio e seguimos com essa ação até o intervalo, quando recebo uma ligação. A chefia tinha visto que Blatter e Zidane estavam nas tribunas e nos mandaram ir atrás. A contragosto, tivemos que cancelar a ação no meio, correr até o carro de novo e voltar para uma missão bem mais difícil e arriscada que o Galvão.
Encaramos mais aquela com sangue nos olhos e, não me pergunte como, depois de 20 minutos estávamos eu, Rafa e Tutu no camarote mais treta, mais vip e mais teoricamente inacessível do estádio.
A poucos metros da gente estavam Zidane, Platini, Ricardo Teixeira, Blatter e Zuma, presidente da África do Sul. A gente demorou para entender como a segurança da Fifa e a guarda nacional do presidente podem ser tão frágeis diante da malandragem sul-americana (Brasil sil siiiil). Se eu fosse um terrorista, teria matado todos de uma vez sem alguém sequer ter perguntado meu nome ao longo de todo o caminho até eles.
Ainda espantados com a facilidade e com a oportunidade de conseguir um material foda, resolvemos ficar na encolha até o jogo terminar. Quando o juiz apitou, quem saiu primeiro e passou na nossa frente foi o presidente Zuma. Ligamos a câmera, sungun na cara do homem, fizemos a entrevista, ele riu e falou que ia sambar se o Brasil ganhasse a Copa. Quando viramos de costas para ir embora, uma rapa de uns 10 seguranças da guarda nacional nos seguraram pelos braços.
A cena chamou a atenção do camarote inteiro. Teixeira, Blatter e Andrés Sanchez olhavam com ar de reprovação. Como se não bastasse tudo isso, os seguranças do presidente eram uns primos do Osama com pinta de terroristas que fizeram o Tutu suar e tremer feito uma criança apavorada. O approach foi sinistro. Era meu momento profissional mais extremo. Fomos no limite, furando a segurança da entidade máxima do futebol em plena Copa do Mundo, a guarda do presidente anfitrião. Com o orgulho ferido e cabeças a prêmio, os seguranças foram impiedosos. Nos pediram a fita. A mesma fita que tinha toda a matéria do Galvão, que por falta de experiência eu não tinha trocado antes de entrar no camarote, tamanha a adrenalina e a velocidade dos acontecimentos.
O tom era ameaçador. Falavam que iam nos prender. Nessa hora imaginei a gente resistindo ao máximo, deixando os caras ainda mais putos e forçando eles a nos levar pra um quartinho. Estamos em outro país, as leis são outras, a gente tinha desafiado a guarda presidencial, enfim. Eles iam achar a fita de qualquer jeito, e endurecer podia tornar as coisas muito piores.
Chamei o Tutu discretamente e pedi pra ele me dar a fita. Dei uma fita zerada de volta. Entregamos essa fita pros caras e é claro que eles deram um play na câmera. Quando viram que não tinha nada, ficaram mais putos e nos deram o ultimato. Tivemos que entregar a fita certa e, logo em seguida, uma oficial da Fifa confiscou nossas credenciais. Resistimos até quando pudemos, mas fomos obrigados a ver nosso trabalho do dia inteiro jogado fora, além das credenciais, que é o que há de mais precioso por aqui.
O baque foi forte. Senti o peso do mundo nas costas. Brigas entre todos, discussões para dizer de quem foi o erro, se ele de fato existiu, ou se esse é o risco que a gente corre por trabalhar sempre no limite. O custe o que custar dessa vez custou. Chefia e produtor, produtor e repórter, chefia e Band, Band e Fifa, todas as relações se desgastaram. O stress foi tanto que não tive vontade de escrever nada desde então. Mas ainda havia uma esperança: em um papo de brimo pra brimo, eu pedi o telefone do chefe de segurança do presidente, que levou a minha fita. O nome dele é Mohammed e foi o próprio que marcou o seu número de telefone no meu celular.
Bom, no final das contas, após 5 dias de negociação, diplomacia e muita conversa com o anjo da guarda, recuperamos a fita e as credenciais. E eu a vontade de escrever pra contar a história que talvez um dia conte com mais detalhes para os meus netos.
fabuloso!
ResponderExcluiranjo da guarda, sei... seu papo é com o tinhoso.....só ele p salva duma dessas.
ResponderExcluirsenti na pele
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